Voando alto

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quinta-feira, 17 de março de 2016

"Cem Anos de Solidão"



Que país é esse que já não reconheço mais?

Eis um dos motivos pelos quais tanto amo a literatura, passam-se os anos e ela vem sempre a calhar com os momentos atuais. Sábios escritores, mestres da palavra...

Trecho retirado de um dos meus livros preferidos: "Cem Anos de Solidão" do inigualável Gabriel García Márquez:

"Recordando essas coisas enquanto preparavam o baú de José Arcádio, Úrsula se perguntava se não era preferível deitar de uma vez na sepultura e que jogassem terra em cima, e perguntava a Deus, sem medo, se de verdade achava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantos padecimentos e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando sua própria confusão, e sentia uns desejos irreprimíveis de desandar a dizer palavrões e xingamentos como se fosse um daqueles forasteiros, e de se permitir enfim um instante de rebeldia, o instante tantas vezes ansiado e tantas vezes adiado de mandar a resignação à merda, e cagar de uma vez para tudo, e arrancar do coração os infinitos montões de palavrões que tinha precisado engolir num século inteiro de conformismo.

– Caralho! – gritou.

Amaranta, que começava a pôr a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.

– Onde está? – perguntou alarmada.

– O quê?

– O animal! – esclareceu Amaranta.

Úrsula pôs o dedo no coração.

– Aqui – disse.”



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