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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Da Série: Diário de Uma Depressão



O quarto era razoavelmente grande, mas eram tantos livros espalhados por ali que transformava-o em um minúsculo espaço.

Eram os seus livros seus grandes companheiros e a cachorrinha que encontrava-se aninhada em um sofá, no canto direito, ao lado de uma das inúmeras pilhas de livros.

Lá fora o vento parecia uma sinfonia ao embalar as folhas da frondosa árvore que ficava rente a janela.

A noite parecia longa demais e o silêncio tão desejado agora assustava.

O silêncio era apenas exterior porque dentro do seu corpo os gritos ecoavam incansavelmente.

Não havia como pedir ajuda quando os olhos de todos só enxergam o conveniente.

Era melhor permanecer em silêncio.

Olhou para o lado, o telefone mudo, 145 dias haviam se passado, mas a vida dentro dela cambaleava no tempo.

Então olhou para o outro lado e puxou da pilha de livros um caderno que encontrava-se entre eles, onde gostava de anotar seus devaneios, tinha sempre um pedaço de papel, um bloco, um folheto, qualquer coisa que pudesse escrever, e uma caneta por perto.

Era uma necessidade silenciosa de comunicação.

Ela pensava que quando as pessoas deixam de entender a vida ou a vida as pessoas (tanto fazia a lógica), somente folhas de papéis podiam suplantar o que achava lhe faltar.

Palavras... As palavras sempre encheram sua vida.

Era na poesia que encontrava seus amigos e chorava seus amores.

Nas rimas doces ou sangrentas, de esperança ou nostalgia ela respirava.

O peito já não carregava mais as flores da juventude, onde os sonhos são reais e palpáveis, agora parecia um deserto seco e quente onde tudo ficava mais difícil de brotar, tudo parecia morrer lentamente.

Ela pensava, se é que ainda conseguia pensar, que as lembranças nessas noites de ventania eram verdadeiras torturadoras da alma.

Sentia medo dessas noites frias, pois era tudo vazio, inclusive seu peito.

Era tarde para buscar algum sentido naquilo tudo que lhe envolvia, nos caminhos trilhados e nas escolhas feitas.

Não entendia o mundo nem tampouco as pessoas que mentiam e desejavam mal as outras.

Não entendia a falta de tempo, tempo esse que depois de perdido não voltava mais.

Não entendia os sentimentos de amor sem intensidade, sem desejo e sem saudade.

Nada mais fazia sentido.

Fechar as portas, as janelas e deixar a noite se prolongar...

Era dessa forma que ela pensava na sua vida, uma eterna noite de ventania, sem lembranças para evitar a dor e sem pessoas para evitar o mal.

Apenas ela em um quarto abarrotado de livros e o animalzinho em silêncio, que de tempo em tempo lhe dirigia um olhar de amor.




Patrícia Belmonte




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