Quase ao final da leitura do livro da jornalista Daniela
Arbex, “Holocausto Brasileiro”, deparei-me com a seguinte frase:
“No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela
deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o
protesto qualquer que seja a sua forma.”
Segui refletindo sobre essa colocação e me encontro fazendo um
comparativo com a nossa realidade geral, onde grande parcela da humanidade cega
à visão de uma sociedade totalmente adoecida.
A desumanidade e o desrespeito ao próximo disseminam-se como
larvas em todas as áreas e aspectos sociais.
Não basta gritar e em seguida silenciar entregando-se ao
conformismo fantasiado de esperança.
Todas as lutas devem ser combatidas sem trégua, sem
aceitação daquilo que nos é imposto mas não cabe. E não, simplesmente, forjando
uma suposta adequação àquilo que não satisfaz.
Adequar-se as normas visivelmente disformes (distorcidas) é
submeter-se a andar nu e comer bosta. A luta antimanicomial, no meu ponto de
vista, vai além dos muros e grades de instituições psiquiátricas, em um mundo
onde ‘o poder’ cega o discernimento de um povo.
Já escreveu o filósofo Michel Foucault em “A História da
Loucura”:
“A ilusão pode curar do ilusório – enquanto somente a razão
pode libertar do desatino. Qual é, assim, esse poder perturbador do imaginário?”
A partir disso sigo a refletir com a pergunta que não
silencia: O que, de fato, é loucura?
Patrícia Belmonte